O Estruturalismo

O estruturalismo é uma teoria linguística que surge no início do século XX, a partir da publicação do célebre Cours de Linguistique Générale (1916), de Ferdinand de Saussure. Tal livro é, na verdade, um recorte de notas das aulas lecionadas por Saussure no período de 1907-1911, na Universidade de Genebra, trabalho organizado por dois de seus alunos e publicado três anos após a sua morte.  É no Curso que se tornam públicas as ideias de Saussure, precursor do estruturalismo, que defendia a hipótese de que a língua funcionava como um sistema, um todo coerente e organizado. Para o estudo efetivo dessa língua, era preciso, portanto, uma análise detalhada de como o sistema se estrutura, revelando assim as unidades mínimas constituintes desse todo. Tais pensamentos sustentam o desenvolvimento da linguística estrutural no século XX.

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A corrente estruturalista entende a língua como um sistema articulado e homogêneo, onde existem elementos coesos e inter-relacionados que funcionam a partir de um conjunto de regras estabelecidas dentro do próprio sistema. Por consequência dessa ideologia, surge outro princípio do estruturalismo:

[…] a língua deve ser estudada em si mesma e por si mesma. É o que chamamos estudo imanente da língua, o que significa dizer que toda preocupação extralinguística deve ser abandonada, uma vez que a estrutura da língua deve ser descrita apenas pelas suas relações internas. (COSTA, 2008, p. 115)

Ou seja, só interessa à perspectiva sistêmica aquilo que é puramente imanente, a língua como um sistema de signos independentes, dispensando qualquer preocupação extralinguística. Compreende-se, dessa maneira, que a língua deve ser analisada como forma (estrutura) e não como substância (matéria da qual ela se manifesta).

Essa visão sistemática da língua para Saussure foi duramente criticada por muitos estudiosos que o sucederam. Esses teóricos passam a buscar uma compreensão do fenômeno da linguagem que não está mais centrado apenas na própria língua, nesse sentido, os elementos excluídos por Saussure, como a fala, o sujeito e a história, que foram trazidos para os embates linguísticos com o intuito de pensar a língua de modo mais amplo, onde exista uma ligação entre o nível propriamente linguístico e o extralinguístico.

Ao estudarmos Saussure é muito comum encontrarmos diversas dicotomias relacionadas ao pensamento do linguista.  Entre as principais estão: língua x fala; sincronia x diacronia; significante x significado; paradigma x sintagma. Dentre essas, a que mais se destacou no estruturalismo foi a que estabeleceu uma diferença entre língua (langue) e fala (parole). A língua, vertente social da linguagem, seria uma construção coletiva, um sistema de valores que se opõem uns aos outros e que está depositado, como produto social, de cada falante de uma comunidade; contrariamente à fala, que constitui o uso individual do sistema e está sujeita a fatores externos, muitos desses não linguísticos, portanto, não passíveis de análise científica. Desse modo, apesar de entender a importância da fala, Saussure escolhe a língua como objeto de estudo específico da linguística estrutural. O linguista faz também uma diferenciação sobre o método de investigação a ser adotado pelo pesquisador: sincrônico e/ou diacrônico. Um estudo sincrônico em linguística diz respeito à análise de uma língua num determinado momento, independentemente da sua evolução histórica; em oposição, a diacronia é o estudo através do tempo, que busca estabelecer uma comparação entre dois momentos da evolução histórica de uma determinada língua. Em mais uma de suas dicotomias, Saussure afirma que a língua é um sistema de signos. O signo linguístico constitui-se numa combinação de significante e significado, no qual um não se concebe sem o outro; o significante é uma imagem acústica (cadeia de sons/impressão psíquica desses sons), enquanto o significado é o conceito e reside no plano do conteúdo. Em mais uma de suas considerações, Saussure enfatiza que a linguagem se constrói a partir de dois eixos: paradigma e sintagma. O paradigma é o eixo vertical (das escolhas, por meio do qual se escolhe a sequência de palavras que constituirá o discurso), já o sintagma seria o eixo horizontal (das combinações, das múltiplas possibilidades de combinação das palavras em frases).

Sob o título de estruturalismo, a linguística moderna conhece duas vertentes principais: a europeia (a qual abordamos até aqui) e a norte-americana.

O estruturalismo norte-americano tem como principal referência intelectual as ideias de Leonard Bloomfield, que desenvolve seus trabalhos de acordo com a corrente da linguística distribucionalista, apresentada nos Estados Unidos com a publicação de Language, em 1933. A linguística de Bloomfield tem por objetivo a descrição total de um estado sincrônico de língua e baseia-se na psicologia behaviorista, que tem Skinner como um de seus maiores teóricos. Assim, de acordo com sua teoria, um sujeito só é capaz de identificar o objeto “cadeira”, por exemplo, se ele estiver perto desse objeto para entender o que é realmente. Com isso, na perspectiva de Skinner, termos como “conteúdo”, “significado” ou “referente” devem ser desprezados enquanto utilizados em respostas verbais. É importante ressaltar que a teoria proposta por Bloomfield, dominante nos Estados Unidos até aproximadamente 1950, é apresentada de maneira independente no momento em que o pensamento saussuriano começa a ser difundido na Europa.

É inegável, que as teorias estruturalistas foram de grande importância para o desenvolvimento das pesquisas em linguística moderna. Tanto os estruturalistas europeus quanto os americanos contribuíram imensamente para o desenvolvimento da ciência da linguagem, porém, não podemos deixar de citar o nome de Ferdinand de Saussure cujas teorias, embora muitas vezes criticadas, são consideradas o “ponta-pé” inicial, pois foi justamente partindo de seus pressupostos que os linguistas puderam ampliar os conhecimentos, bem como acrescentar novas concepções acerca dos estudos linguísticos.

Por Cristovão Mascarenhas e Lucas Silva

Referências:

COSTA, M.A. Estruturalismo. In: MARTELOTTA, M.E. (Org.). Manual de linguística. São Paulo: Contexto, 2008, p. 113-126.

MARTELOTTA, MÁRIO EDUARDO. Manual de linguística. 1. Ed., 3ª reimpressão. – São Paulo: Contexto, 2010.

SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguística geral. São Paulo: Cultrix, 1975.

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